Falta polícia, mas sobra ladrão

Secretário de Segurança Pública do Estado, Antonio Ferreira Pinto não conhece Antonia Silva dos Santos.
Verdade seja dita, nem tem a obrigação de conhecer.
Assim como não tem a obrigação de conhecer Valdizete Barbosa, Carmem das Dores Costa, Dalma Cabral, Heloísa Andreotti Lucena e tantas outras mães que perderam filhos de forma violenta no Vale do Paraíba nos últimos anos. Seus filhos? O secretário nunca ouviu falar deles. De sua sala na rua Líbero Badaró, no centro de São Paulo, o secretário enxerga Matheus, Vânia, Claudemir, os irmãos Rodolfo e Eduardo, além de Jacob como números, parcelas nas estatísticas de mortes violentas no Vale nos últimos anos.
Mas, apesar de números, são números incômodos de uma guerra que o Estado, a quem Ferreira Pinto representa, está perdendo.

Recorde. A derrota do Estado está evidente nas estatísticas divulgadas pela secretaria comandada por Ferreira Pinto. Por elas, o cidadão ficou sabendo que o Vale do Paraíba bateu o recorde histórico de violência, com 114 pessoas assassinadas nos 3 primeiros meses de 2012 –média superior a uma morte por dia.
Para comparação, a região de Campinas ficou em segundo lugar com 88 mortes.
Fosse um índice esporádico, seria trágico, mas não deplorável. Não, não é um índice esporádico: a região bate sucessivos recordes de mortes violentas e ostenta, infelizmente, o topo do ranking de homicídios no interior do Estado. Uma posição ruim para uma região que tem, entre seus filhos, o chefe de Ferreira Pinto –o governador Geraldo Alckmin (PSDB), nascido e criado em Pindamonhangaba.
O que pensa o secretário da Segurança sobre isso?
Não se sabe. Mas seus aliados regionais –os comandantes das polícias Civil e Militar no Vale– dão, a cada novo ranking oficial da violência divulgado pela Secretaria da Segurança Pública, as mesmas explicações: as mortes estão ligadas ao tráfico, homicídios são crimes difíceis de prever, a polícia vai reforçar sua presença nas ruas, uma nova forma de combate a crimes como homicídios, roubos e tráfico de drogas será adotada daqui para a frente. Tudo resolvido então?
Resolvido nada.
Se tudo isso está sendo e os índices de violência são cada vez mais crescentes, o resumo da ópera é um só: senhor secretário, não está dando certo. O que falta fazer então?

Be-a-bá. A região tem crimes demais, presos demais, bandidos demais e, para azar do cidadão, polícia de menos. Em Taubaté, por exemplo, considerada a cidade mais violenta do Vale, há um déficit de 180 policiais. Em São José, a PM está sem comandante regional.
Que coisa feia.
Se a gestão da Segurança Pública na região fosse controlada sob padrões de resultados e metas típicos da iniciativa privada, só o pó: ia muita gente pro olho da rua. Dito siso, cabe um senão: tem muita gente séria na polícia, mas falta infra-estrutura, falta logística, falta eficiência. E tudo isso em uma das regiões mais ricas do interior do Estado.
Até quando, secretário?

Curtas

Telinha
Seja ele quem for, o nome do PSDB a prefeito de São José tem no próximo dia 24 o primeiro desafio público: uma sabatina na TV Band Vale sobre suas propostas ao Paço Municipal

Vaguinha
Na lista de pré-candidatos do PSDB, Felício Ramuth já não esconde sua prioridade: voltar o mais rápido possível para um cargo no primeiro escalão do governo Eduardo Cury

Calculadora
Eduardo Cury traçou como meta conversar com 100 lideranças da cidade sobre o perfil ideal do candidato do PSDB ao Paço. O nome pode sair nesta segunda-feira

A poesia das cidades

Estava eu jogando conversa fora quando uma fagulha de memória trouxe à mente um poema há muito esquecido: “O Captain! My Captain!”.
O autor, Walt Whitman.
Alguns se lembram do poema em razão de “Sociedade dos Poetas Mortos”, filme de 1990 em que Robin Williams interpreta um professor de uma escola tradicionalíssima dos Estados Unidos que tenta ensinar seus alunos a pensarem por si mesmos. O professor transforma a estrofe-título em bordão. Eu lembro por outro motivo: um livro garimpado há anos na antiga Biblioteca Central da Universidade de Taubaté, “Leaves of Grass” –em português, “Folhas na Relva”, que ganhou em 2011 nova edição, pela Hedra, com tradução de Bruno Gambarotto.
Whitman foi o idealizador do verso livre e, segundo Paulo Leminski, que prefaciou “Folhas na Relva” nos anos 80, a voz da Revolução Americana. Foi o poeta das pradarias, dos espaços abertos.

Concreto. A obra de Whitman ganhou leitura concreta e inovadora graças a outro norte-americano cabeça, Frank Lloyd Wright.
Inspirado em Whitman, Lloyd Wright, adepto da arquitetura orgânica, criou a casa-pradaria –que integrava a construção à paisagem com espaços abertos e grandes estruturas. Para ele, mais importante que o projeto era a ideia, o conceito-motriz. Fez isso na famosa casa da cascata, que funde concreto e natureza, e em sua obra-prima tardia, a Robie House.
Lloyd Wright, assim como Oscar Niemeyer, Lúcio Costa, Renzo Piano, Santiago Calatrava, Zaha Hadid e todos os papas e papisas da arquitetura e urbanismo, celebrava a ideia. O que é Brasília se não a ideia da cidade sem barreiras? Hoje, 52 anos depois, em meio a tantos escândalos, vemos Brasília pelo lado que deu errado. Mas ela é bem mais que Lula, Sarney, Renan e companhia.

Bússola. Isso serve de pano de fundo para a pergunta-chave: que ideia de cidade inspira São José? A pergunta é relevante em ano de eleição. Muitos têm falado em limitar o crescimento da cidade. Para onde?
Secretário de Planejamento de São José nos anos 80, Adalton Paes Manso acha difícil definir o tamanho ideal de uma cidade. Por uma razão: a cidade é dinâmica –ela não é feita na prancheta de arquitetos, mas construída no dia-a-dia. Mas arrisca: com suas restrições geográficas, São José pode chegar bem a 1,6 milhões de habitantes. Mais que o dobro da cidade atual. O número do prefeito Eduardo Cury (PSDB) é menor: 1 milhão. O que pensa o Instituto de Planejamento?
São José perdeu a chance de criar uma cidade mais organizada no debate da Lei de Zoneamento –que tem acertos, mas remendos demais. A eleição é um bom momento para isso.
Dentro desse contexto ocorre em maio o debate Cidades Sustentáveis, a ser realizado no Sesc de São José e que pretende lançar a carta compromisso de São José como cidade sustentável –a ser assinada, espera-se, pelos pré-candidatos a prefeito. É uma ideia
E o que é a cidade senão uma ideia vivida por muita gente? Um poema onde cada um recita um verso e eles rolam, soltos, por aí. Como folhas nas relvas.

Curtas

Eleição
Na gangorra do PSDB, o nome de Claude Moura voltou a subir, graças ao apoio de Eduardo Cury. O plano B de Cury ainda é Felício Ramuth, para frustração de Alexandre Blanco

Bola fora
O contrato do Pró-visão para gerir o Clínicas Norte tem problemas: por mexer com verba federal, do SUS, a escolha da OS deveria ter sido feita por meio de pregão eletrônico

Taubaté
O prefeito Roberto Peixoto (PMDB) encara novo teste na Câmara esta semana: entram na pauta as contas de 2006, rejeitadas pelo TCE por atraso no pagamento de precatórios

Dois pra lá, dois pra cá

Falando francamente, nunca imaginei que a ex-secretária Claude Moura fosse tão, tão qualificada como candidata a prefeita.
Calma, minha gente.
Não estou pedindo voto nem fazendo campanha. Estou apenas fazendo uma comparação desapaixonada entre os quatro ex-secretários que deixaram o governo Eduardo Cury para tentar se cacifar como o nome do PSDB a prefeito de São José nas eleições de outubro. Perfilados os quatro, Claude, por exclusão, larga na frente. Embora tenha carisma quase zero, ela tem experiência, conhece a máquina do governo e conhece política. Os outros –Marina Oliveira, Felício Ramuth e Alexandre Blanco– são fracos.
Então, entre os quatro, Claude é, potencialmente, a mais capacitada para entrar na briga com o PT de Carlinhos Almeida. Mas, venhamos e convenhamos, continuam todos o que sempre foram: postes, coadjuvantes na ribalta política da cidade. Será esse mesmo o horizonte de escolha do PSDB após 16 anos de hegemonia política em São José? Se for, a coisa complicou.

Síndico. O PSDB vem empurrando a sucessão com a barriga como se estivesse em jogo a vaga de síndico do Paço Municipal e não o cargo de prefeito de um dos municípios mais importantes do país. O nome, quem sabe, sai até 30 de abril.
Porque esse desleixo?
Porque os tucanos, apesar de fingirem o contrário, acreditam: a eleição está ganha.
Suas lideranças se baseiam em duas frentes: a aprovação do governo Cury (na faixa de 41,5%, segundo pesquisa OVALE/Mind, realizada em janeiro) e a força do marketing eleitoral, a cargo de Osair Vasconcelos, homem de extrema confiança de Emanuel Fernandes. E marketing eleitoral cria de tudo: da Fábrica de Empregos de Emanuel Fernandes na campanha de 1996 ao Fome Zero de Luiz Inácio Lula da Silva em 2002, sepultado após a posse na Presidência em 2003.

O cara. Mas Claude não é a bola da vez no partido.
Ele tem apoio da bancada aliada na Câmara e a simpatia de Cury, mas não tem respaldo junto a Emanuel e já foi avisada: agora, a bola da vez é Alexandre Blanco. Surpresa? Para muita gente sim. Para esses, Blanco ainda precisa comer muito feijão para se cacifar como candidato. Por esse ponto de vista, ele seria bom nome para 2016. Ou para 2020.
Mas Blanco tem DNA político forte. E isso tem pesado atualmente: ele é filho de Juana Blanco, um ícone do PSDB de São José, e enteado de Emanuel Fernandes. O que antes poderia ser obstáculo, agora, por novo entendimento familiar, parece ser fator determinante. Emanuel já disse que Blanco –apelidado de príncipe no Paço– é seu herdeiro natural. Resta saber se herdeiro para 2012 ou para mais tarde.
Sem Claude, Cury pode até sonhar com outro nome, o de Ramuth. Mas será Felício forte o suficiente para ombrear com o DNA político de Blanco?

E aí? Bem, longe dessa refrega doméstica, o governador Geraldo Alckmin e os chefões do PSDB do Estado nem vacilam frente à pergunta: o candidato em São José? Ora, é Emanuel.

Curtas

Plano B
Pré-candidato ao Paço, o vereador governista Alexandre da Farmácia (PR) já tem um plano B: admite ser vice na chapa de oposição, encabeçada por Carlinhos Almeida.

Taubaté 1
A Câmara analisa a criação de nova Comissão Processante para investigar o prefeito Roberto Peixoto (PMDB). Alvo: supostas irregularidades em contratações na área da Cultura.

Taubaté 2
A diferença em relação à CP de 2011 é que a situação sinaliza pela cassação. A saída de Peixoto agrada o PMDB, que teria espaço para coligações sem a herança de Peixoto.

Estrela Solitária

Responda rápido: o que é o que é que dá muitas voltas, mas não sai do lugar?
No dito popular, a resposta certa é uma só: relógio. Mas no tique-taque da política de São José, bem que a resposta poderia ser o PT. Para ser mais exato, o PT e a candidatura eterna de Carlinhos Almeida a prefeito –candidatura que passará este ano pelo seu quarto teste nas urnas, após três tentativas frustradas. Se não vencer, o candidato do PT superará em teimosia a Luiz Inácio Lula da Silva, que bateu três vezes na trave antes de chegar à Presidência da República.
A pergunta é: Carlinhos tem chance de repetir Lula e ganhar pela insistência?
Sem ter bola de cristal e fazendo uma análise fria, dá para arriscar: não será fácil.
Apesar da fragilidade dos nomes que disputam no PSDB a postulação ao Paço, cada um pior que o outro, a candidatura do PT sofre de um problema sério: a falta de apetite do próprio Carlinhos para a disputa. Dá para fazer campanha, mobilizar militân-cia e arrecadar recursos com o próprio candidato preferindo a sombra?

Memória. Nem sempre foi assim. No primeiro embate com Eduardo Cury (PSDB), em 2004, quando o tucano debutava nas urnas, Carlinhos largou como favorito. Tão favorito que, meses antes da eleição, seu comando de campanha já teria distribuído os cargos de primeiro escalão. Acabou atropelado ainda no primeiro turno. Em 2008 chegou a estar bem nas pesquisas, mas acabou torpedeado de novo. E de novo no primeiro turno.

Estratégia. Muita gente acha que o estágio latente da candidatura de Carlinhos é mais aparente que real. Ele e seu grupo estão fazendo reuniões nos bairros, conversando com lideranças e levantando os pontos vulneráveis do PSDB para explorá-los no embate eleitoral.
A inapetência seria, então, estratégia política. Adotada por dois motivos.
Primeiro, o PT acredita que o PSDB não vai entrar na disputa com uma candidatura de segundo time. Para Carlinhos, no final das contas, o candidato tucano será mesmo Emanuel Fernandes e desperdiçar chumbo nos nomes que estão por aí seria perda de tempo e, principalmente, de foco.
Segundo, prudência: após largar na frente por duas vezes e perder fôlego no decorrer da campanha, Carlinhos teria adotado uma estratégia cautelosa, para tentar um fôlego extra na reta final da disputa.

Contra. Política é a arte dos detalhes e muita coisa vai acontecer até o dia 7 de outubro.
Mas é certo que Carlinhos terá alguns obstáculos contra si: a aprovação do governo do PSDB junto ao eleitor, como apontou a pesquisa OVALE/Mind, divulgada em janeiro, os ecos distantes, mas ainda ouvidos do governo Angela Guadagnin e, como fato novo, o escândalo que envolve seu ex-coordenador de campanha Apostole Lázaro Chryssafidis, o Lack –que teve bens bloqueados pela Justiça Federal sob acusação de desvio de verbas do Ministério do Turismo.
Conseguirá ele reagir a isso ou continuará a ter destino de relógio? O que é, o que é: dá muitas voltas, mas não sai do lugar?

Curtas

Volks &
O investimento da Volks e a geração de 8.000 vagas serve de balança entre o sindicalismo de resultados dos metalúrgicos de Taubaté e o sindicalismo ideológico do PSTU em São José

Taubaté
Afonso Lobato refuga Roberto Peixoto, que desautoriza uma aliança do PMDB sem seu aval. Para muitos, a briga é só ficção: Ary Kara José já teria alinhado os termos do pacto PMDB-PV

No espaço
A nomeação de José Raimundo Coelho para a AEB subiu no telhado em razão da nomeação do novo diretor do Inpe. Leonel Perondi, favorito ao cargo, é desafeto de Coelho

E o salário, ó!

Morto na última sexta-feira aos 80 anos, Chico Anysio dizia que existem dois tipos de humor, o engraçado e o sem graça.
É uma frase simples.
Dita nessa época do politicamente correto, é de uma agudez exemplar. E se encaixa tanto no humor –como ensinou o criador do Professor Raymundo, do Alberto Roberto, do Bozó e outros 200 personagens que marcaram o humor brasileiro ao longo de décadas– quanto no jornalismo. Afinal, existem dois tipos de jornalismo: o bom e o mau jornalismo. O jornalismo eficaz, que reflete a sociedade e, ao mesmo tempo, a instiga e faz a sociedade avançar através do debate de ideias e da reflexão sobre seus problemas e seus desafios, e o jornalismo ineficaz.
Grandes jornalistas brasileiros debateram essa distinção ao longo dos anos.
Alberto Dines dizia que a sociedade que aceita qualquer jornalismo não merece jornalismo melhor. Cláudio Abramo pregava que jornalismo é, antes de tudo e sobretudo, a prática diária da inteligência e o exercício cotidiano do caráter. Misto de humorista e jornalista, Millôr Fernandes sentenciou de forma radical: jornalismo é oposição, o resto é armazém de secos e molhados. “Tá danado”, teria exclamado Azambuja, personagem de Chico Anysio que representava os malandros dos subúrbios do Rio de Janeiro.
Mais que oposição, jornalismo é reflexão.
Ele deve informar o leitor, mas também deve ir além: levá-lo a conhecer melhor a cidade, o país, o mundo. E a pensar sobre eles. Em artigo sobre Alberto Dines, Eugênio Bucci escreveu que a imprensa se ocupa mais das incertezas que das certezas. É verdade. Afinal, é sobre a incerteza que é possível a sociedade avançar. Assim como jornalismo não é simplesmente oposição, jornalismo também não pode ser neutro. Jornalismo é ação, um instrumento de mudança.
O humor existe para incomodar, dizia Chico Anysio. Assim como o bom jornalismo. O resto, venhamos e convenhamos, é armazém de secos e molhados. E some assim, vapt-vupt, da cabeça do leitor.

Feijão, futebol & histórias de família

Herdei do meu pai muitas coisas, entre elas o meu nome, Hélcio Costa, e algumas manias. A principal delas é pensar pela minha própria cabeça. Outra, não ter receio de dizer o que penso.
Arrisco o palpite: a junção dessas duas coisas me trouxe até aqui, nesta página 3 de um jornal de domingo.
Mas não foi só isso.
Ao longo dos anos, aprendi com ele a chutar com efeito, a gostar de futebol, a ter prazer em ir a um estádio (prazer que transmiti a meus filhos) e a ler jornal –graças ao antigo “Diário de S. Paulo”, que ele levava para casa na hora do almoço, em um tempo em que as famílias almoçavam juntas. Primeiro fui atraído pelos quadrinhos, depois passei ao noticiário de esportes e, muito depois, às páginas de política.
Lá, encontrei coisas que ajudaram a nos separar.
Ficamos um tempo distantes, e só nos reaproximamos a pedido de minha mãe. Foi tempo jogado fora, que, infelizmente, não volta.
Mas olhando a vida de frente para trás, vejo que ele esteve sempre ao meu lado, no tempo das vagas gordas e, principalmente, no das vacas magras.
Aprendi outras coisas: a importância da família, o gosto pelos livros e pela história, a dedicação ao trabalho como algo mais que obrigação e salário. Pelo trabalho, é possível ampliar horizontes, ajudar pessoas. No caso dele, médico do tempo antigo, vi acontecer muitas vezes, graças a um diagnóstico certeiro, uma cirurgia bem sucedida, uma ação eficaz que, em segundos, separa a pessoa da vida e da morte.
Aprendi com meu pai que não existem super-homens: somos todos falíveis. Erramos, muitas vezes. Aprendi mais: aprendi a não ter medo da vida.
Há alguns anos, meu pai registrou em 8 ou 9 páginas de papel ofício as coisas que ele julgava importantes em sua vida para que os filhos e os netos o conhecessem melhor.
Lá estão seus títulos, diagnósticos pioneiros de doenças de nomes estranhos, como a síndrome de Chediak-Higashi, estudos que mudaram a aplicação da BCG oral no país, a luta para manter aberta a Faculdade de Medicina de Taubaté, a batalha para tratar a água que abastecia Cruzeiro. Estão lá.
Para mim, sem surpresas. Dele, sei bem mais que isso.
Sei do instante em que ele decidiu ser médico, aos 6 anos; de sua teimosia, apoiada por meu avô, José Olympio, para entrar na Faculdade Nacional e se manter, filho de ferroviário, no Rio de Janeiro. Sei histórias de cor: da mãe pobre que pagava a consulta dos filhos com maços de couve, dos dias amanhecidos nos hospitais, da primeira fotografia que fiz, tirada com uma Kodak Rio 400, mostrando meu pai, no almoço, se servindo de feijão fumegando.
Hoje, a idade chegou e ele foi forçado a diminuir o ritmo.
Reclama do esforço imposto pela fisioterapia. Mas esquece de tudo para conversar com os netos e comer uma esfiha do Salim Minhoto, com direito a uma empada de sobremesa. Aos 85 anos, ficou guloso.

Hoje. Domingo é dia de visitá-lo. Leitor voraz, ele gosta de comentar meus artigos. O que dirá hoje? Herdei muitas coisas do meu pai. Entre elas, a mania de gostar das pessoas.
De algumas, de modo especial.